Lições de Parati

Aqui não vou falar da paisagem de Paraty, nem da volta que durou 15 horas com escala em Florianópolis, nem da sensacional batidinha-pinga-cremosa-de- cravo-e-canela Gabriela de Paraty (obviamente trouxe uma garrafa) e muito menos do ronco frenético do Jairo que me fez acordar e dar uma volta pela cidade para ver o nascer do sol às 5 e pouco da manhã de domingo! (pra ser sincero – e justo com o Jairo – eu também dei as minhas roncadinhas…)

Vamos ao tal I Encontro Nacional Latino Americano de Redação Publicitária.

No primeiro dia a programação incluia um coquetel, uma exposição de anúncios e lançamento de um livro de títulos publicitários. Chegamos na Casa da Cultura pontualmente, um localzinho agradável porém acanhado. Uma pequena parede com uma dúzia de anúncios manjados garantiram uma péssima primeira impressão do evento. “Não pode ser só isso.”. Era só isso. Duas cervejas depois, o local já estava cheio. Depois de mais alguns comes e bebes, fomos embora pois não havia mais nada a se fazer por ali.

No dia seguinte as coisas foram bem melhores. Primeiro pelo local do evento: as palestras foram realizadas na Igreja Matriz. Apesar de estar precisando de uma reforma, foi um cenário pra lá de interessante.

A primeira palestra foi de Lula Vieira, com o tema “Os melhores textos que li na vida”. Excelente comunicador, o cara mostrou e debateu textos selecionados, além de contar uma série de causos e percalços de sua carreira como coroinha, jornalista e, enfim, publicitário. Citou uma frase excelente que me chamou bastante atenção: “Eu não vim ao mundo a negócio, e sim a passeio.”

Ercílio Tranjan e Gilberto Reis seguiram o formato, com uma apresentação de títulos separados por décadas a partir dos anos 60. O anunciante era mostrado posteriormente, critério achado para demonstrar a perenidade dos títulos apresentados. Frase de Giba para provocar os diretores de arte presentes: “Um conceito vale mais que mil imagens.”

Sem querer rimar, mas já rimando: o destaque da manhã foi mesmo o Nizan. No começo, falou um pouquinho sobre a formação e a expansão da B/Ypy, depois um pouquinho da África e aí mostrou seu rolo de filmes por 40 minutos (desde os clássicos Hitler e US Top até os mais recentes como o filme da Brahma com o Zeca Pagodinho feito para a derrota do Brasil e o excelente filme do Itaú que não tem assinatura no final – texto dele).

Depois do rolo, falou por mais meia hora. Mas que meia-hora: além de ir direto ao ponto, dizendo que hoje o mercado não precisa mais de redatores e/ou diretores de arte, mas sim de CRIADORES, o cara mostrou uma intensa paixão pelo que faz. Ele canta seus próprios jingles durante a apresentação, balança a cabeça, é altamente motivador e inspirador. Não é nem um pouco blasé a respeito do trabalho. Disse que quem precisa ter estilo é a comunicação de seus clientes e não o criador, criticou os critérios das premiações atuais, especialmente Cannes, mas sem negar sua importância para o negócio. Disse que todo portfolio, seja de empresa, profissional ou estudante, precisa ter variedade: materiais com idéia, intelectuais e inteligentes, varejo bem feito, PDV, marketing direto (“Nem toda mala-direta precisa ser uma mala”), peças populares, endomarketing, jingles, internet, viral, etc. Meteu o pau em telemarketing (“Avisa a Gislaine para ligar depois porque estou transando!”). Falou bastante sobre maturidade profissional e que os profissionais e as empresas precisam ser operacionáveis no sentido de entender / resolver as necessidades dos clientes. Resumindo: atualização constante e perfil variado (de clientes, profissionais, trabalhos no portfolio) é o que traz reconhecimento, sucesso e dinheiro. Muito bom.

Já as palestras da tarde também foram boas, mas um pouco menos do que as matinais.

Carlos Pedrosa é um lóque total, da velha guarda, cheio de excelentes tiradas. Brigou com sua apresentação em DVD, definiu www como What a Wonderful Word. Disse que um criador tem que deixar um espaço para a própria intuição. E fazer e refazer seu trabalho sem preguiça na busca de um resultado final perfeito. Citou uma frase ótima do Padre Antonio Vieira: “Desculpe pela longa carta, mas não tive tempo de ser breve.”.

Depois teve a entrega do Prêmio Jeca Tatu, que valoriza a linguagem e a cultura brasileira na publicidade. Os homenageados foram Antonio Torres e Mauro Salles, destaques da propaganda brasileira nos anos 60 e 70. Salles é o autor do ad clássico “Faça como a Ford. Compre um Willis” e foi dono da maior agência brasileira na época. Seus discursos foram recheados de memórias nostálgicas e reminiscências do passado, o que afastou a molecadinha estudante do auditório. Ainda que sem muita importância prática, as palestras acabaram valendo por suas lições de vida e tal. Salles tem 74 anos, ficou na mesma pousada que a gente e é um velhinho muito simpático. Torres falou uma frase que parece óbvia, mas é muito verdadeira: “A construção de uma carreira, de uma vida, de um patrimônio, passa por muito trabalho.”

Por fim, o diretor de criação da Fisher argentina, Fernando Fernadez, apresentou um vídeo interessantíssimo: ele pegou um redator junior de 20 e poucos anos, um sênior de 32 e um diretor de criação de 45 anos, e fez as mesmas 20 perguntas para todos. Sua palestra foi então baseada no contraste de opiniões entre esses profissionais. Excelente.

Depois disso, o que nos restou foi dar um bode no hotel e conferir a festinha de encerramento com direito a Ciranda Elétrica, Valsada e Calção – e pra mim, tudo soou como uma grande mistura de forró com festa junina.

No dia seguinte, na saída da cidade, uma frase numa velha placa de outdoor resumiu bem a viagem: Paraty. A única coisa que mudou foi você.

PS: Este post totalmente alltype é uma homenagem a um evento exclusivamente de redação publicitária.

Um comentário...

Um comentário por enquanto

  1. Laíse S Costa 14.09.2008 1:09 pm

    Ciranda Elétrica é a tradicional ciranda de Paraty, em sua roupagem mais fashion!!!

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