Será que ainda podemos acreditar nas pesquisas quantitativas?

Recentemente o Instituto de Pesquisa Meta realizou uma pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação do Governo Federal para avaliar os hábitos de informação e formação de opinião da população brasileira. Chamam atenção alguns aspectos:

1. Cada vez menos acredito em pesquisas quantitativas. O percentual de pessoas que diz ler jornal é muito alto. Se alguém chega a você e pergunta se você lê jornal, qual seria a resposta? Mas pergunto: o que além da manchete de capa você costuma ler? Qual o nome de um colunista do jornal? Qual foi a matéria de capa do dia anterior? E principalmente, você lembraria de um anúncio do jornal? Dizer que lê jornal, na minha visão, ainda é sinônimo de status (“como assim você não lê jornal?”)

2. A pesquisa apresenta que o percentual de leitura de livros é baixo. 52,9% dizem não ler livros. Segundo os dados da pesquisa o brasileiro lê em torno de 1,9 livros ao ano. Lembro que 1/4 desta pesquisa está entre 16 a 24 anos, ou seja, um volume grande de pessoas que ainda lê livros didáticos. Podem ter certeza de que neste 1,9 livros tem muito livro de escola ou faculdade.

3. A TV não morrerá logo. 79,9% das pessoas dizem ver TV entre 1 e 6 horas. A pessoa dorme 8 horas, trabalha 10 horas. O que faz sobrar 6 horas no dia. Tem gente que só vê TV neste período.

4. O engraçado nesta história é que estas mesmas 80% de pessoas dizem escutar rádio entre 1 e 6 horas. Ou seja, quando o cidadão não está trabalhando, nem dormindo, nem comendo, ele está ou na TV ou no rádio. E 70% diz escutar rádio em casa. Não é no carro.

5. Aí temos um índice de 16,4 horas semanais de uso da internet. Isto dá 2,4 horas por dia. Definitivamente somos multimídias. Usamos as 6 horas que temos livres em nosso dia para ver até 6 horas de TV, escutar até 6 horas de música e navegar por 2,4 horas na internet. Teríamos quebrado as leis da física?

6. O uso de nossa internet me parece muito mais superficial do que os analistas vem falando. 63% das pessoas utilizam para o lazer. 61% diz não ler blogs, jornais ou notícias na web. E temos 65,4% que usam o Orkut, 64,7% que usam o Msn, 37,14% que usam o Youtube. Ou seja, a internet tem seu principal uso no besteirol mesmo.

7. 50% das pessoas costumam ver os pronunciamentos do governo. É claro. Ele está sempre entre o JN e a novela.

8. 21,43% acompanham a Voz do Brasil. Estes não devem ter Cd ou Mp3 em seus carros ou casas. Afinal não há como escapar do programa. Uma emissora de rádio de Curitiba recentemente comemorava a liderança na audiência no período das 19 às 20h. O detalhe é que a emissora possui uma liminar para não transmitir o programa. E parece ser a única.

9. 80% das pessoas não acessam sites do governo. Claro, o que elas querem é diversão.

10. Quase 60% das pessoas acreditam que as notícias veiculadas na mídia são tendenciosas. Isto é total falta de credibilidade da nossa imprensa. 80% dizem acreditar pouco ou não acreditar nos meios de comunicação.

11. 46% dizem ler jornal mas, apenas 6,3% consideram o jornal como meio mais confiável. Ainda somente 5,6% dizem que o jornal é o meio mais importante para buscar informação. Ou o jornal está definitivamente morrendo ou pesquisa quantitativa não serve para muita coisa.

12. E finalmente, 33,7% dizem que o William Bonner é o apresentador mais confiável. Mas 56,4% das pessoas assistem o Jornal Nacional. Porque será que 22,7% continuam assistindo o JN?

A pesquisa entrevistou 12.000 pessoas de 539 municípios brasileiros.

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